Jesus, num discurso na sinagoga em Cafarnaum, falou do general siro Naamã, inimigo de Israel, que alcançou cura por ter sido levado a exercer fé em Deus com simplicidade (Lc 4.27-30). Os judeus ficaram tão irados que o expulsaram da cidade e queriam matá-lo, tentando precipitá-lo do alto de um monte. Mas Jesus escapou e seguiu em frente. Parece o caso de “muito barulho por nada”, mas não é. Aqui estava estabelecida uma questão central da fé. Por isso vamos contar a história toda, a seguir.

O general Naamã era o comandante do exército do rei da Síria. Era poderoso, mas tinha um grande problema: havia contraído lepra. Ele tinha pouco tempo de vida e seu prestígio estava minguando. Nisso, uma menina israelita, sua escrava e criada, lhe apresentou a mensagem de que havia em Israel um profeta de Deus que podia curá-lo. Ele juntou presentes finos e muito dinheiro, e partiu ao encontro do profeta Eliseu. A mensagem que o profeta lhe deu foi simples e direta: “Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e a tua carne será restaurada, e ficarás limpo”.

Naamã ficou indignado, e reclamou: “Pensava eu que ele sairia a ter comigo, por-se-ia de pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, moveria a mão sobre o lugar da lepra e restauraria o leproso”. Nisso, os seus oficiais lhe disseram: “Meu pai, se te houvesse dito o profeta alguma coisa difícil, acaso, não a farias? Quanto mais, já que apenas te disse: Lava-te e ficarás limpo”. Então, Naamã fez o que lhe dissera o profeta de Deus e ficou totalmente curado. Depois disso, ele afirmou: “Reconheço que em toda a terra não há Deus, senão em Israel”. (2 Re 5.1-15)

Moral da história: enquanto o profeta de Deus queria que Naamã exercesse uma fé simples, este queria espetáculo. Mas foi só depois de fazer “consoante a palavra do homem de Deus” que Naamã recebeu a sua bênção.

É assim com o Evangelho de Jesus Cristo: sua mensagem é simples e descomplicada, cuja linguagem é compreensível até mesmo às crianças. A resposta óbvia que a mensagem do Evangelho exige de cada pessoa deve ser imbuída de uma fé igualmente simples, mas nunca simplista. A experiência nos ensina, porém, que muitos não conseguem entender que as exigências esdrúxulas e mirabolantes, muitas vezes apresentadas como “mensagens evangélicas”, nada têm a ver com o verdadeiro Evangelho.

Se o Evangelho fosse complicado, talvez fosse mais palatável aos afeitos a enfrentar desafios pessoais difíceis. Se dependesse de grandes exercícios intelectuais, talvez fosse considerado suficientemente culto para os que se gloriam no próprio saber. Se dependesse de investimento financeiro e pudesse ser comparado a uma apólice, talvez os ricos estivessem dispostos a pagar grandes somas para conseguir bênçãos.

O Evangelho tem uma marca: tudo o que tinha de ser feito para que a nossa comunhão com Deus fosse reatada, já foi realizado por Jesus na cruz. Ele mesmo disse: “Está consumado!”. Essa é a boa notícia: o Evangelho “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). O Evangelho é a “boa notícia” de que somos salvos pela graça. O que Deus requer de cada pessoa é a simplicidade da fé devida ao Evangelho.

Infelizmente, alguns líderes religiosos abusam da credulidade do povo, em vez de levarem as pessoas ao exercício de uma fé simples; complicam tudo e as remetem aos esforços pessoais que em nada aproveitam. Bem disse o sábio Salomão: “Tudo o que eu aprendi se resume nisto: Deus nos fez simples e direitos, mas nós complicamos tudo” (Ec 7.29).

O Evangelho de Jesus é simples, mas deveras exigente. A porta e o caminho para a vida eterna são estreitos e sem atalhos (Mt 7.13,14). Os religiosos tentam alargá-los, mas isso só resulta em perdição. Deus quer que você apenas exerça sua fé com simplicidade.

Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém

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